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O MAIOR FUNERAL DO BRASIL – A MORTE DA IMPERATRIZ LEOPOLDINA

A cada dia que passava o estado de saúde de Dona Leopoldina piorava. Os boletins médicos afirmavam que a imperatriz sentia fortes dores no nervo ciático, febre, diarreia e constipação. Entretanto não havia nenhum sinal de um possível aborto.

Grávida pela oitava vez, com sintomas de depressão, a imperatriz não se encontrava bem de saúde física e psicológica desde o início de novembro de 1826.

Claramente o relacionamento extraconjugal de Dom Pedro com a Marquesa de Santos a afetava. Tendo em vista que Dom Pedro I não fazia questão alguma de esconder seu relacionamento amoroso com Domitila de Castro. Além disso, Dona Leopoldina estava muito apreensiva sobre o casamento entre sua filha primogênita Maria da Glória e seu tio, Dom Miguel, irmão de Dom Pedro I.

A doença

Segundo diversos relatos e boletins médicos Dona Leopoldina tinha a saúde muito frágil. A imperatriz possuía sérios problemas hepáticos, sentia muitas dores reumáticas, sofria de problemas nos nervos, hemorroidas e uma depressão profunda.

A despedida do casal

Dom Pedro I precisava viajar para o Sul do Brasil, para tentar resolver algumas questões sobre a Cisplatina. Como Dona Leopoldina estava doente o Imperador decidiu adiar a viagem por alguns dias. Após uma pequena melhora no estado de saúde da Imperatriz o Imperador partiu rumo ao Sul na noite do dia 23 de novembro, mas antes Dona Leopoldina o chamou e disse:

“Eu estou morrendo […] quando você voltar do Rio Grande, eu não estarei mais aqui. Os que são separados na vida serão unidos depois da morte”.

Eles se abraçaram aos prantos e ela lhe perdoou por todas as ofensas cometidas.

Dom Pedro I e Dona Leopoldina visitando a Casa Dos Expostos, atualmente o orfanato Romão Duarte no Flamengo, RJ. Retrato de Arnaud Pallière.

O último compromisso da Imperatriz

O imperador partiu para o sul, e deixou a esposa como regente. No dia 29 de novembro de 1826 a Imperatriz se esforçou, conseguiu se levantar da cama e presidir o conselho de ministros. Depois disso, sua situação piorou visivelmente e todos os compromissos oficiais, foram cancelados.

Festividades canceladas

A apreensão já era sentida pela população carioca quando o Diário Fluminense, anunciou um comunicado subscrito pelo porteiro da Imperial Câmara:

“Em consequência de continuar o incômodo de Sua Majestade a Imperatriz, não há beija-mão nos dias 1 e 2 do próximo mês de dezembro”.

No dia 1 de dezembro seria comemorado o quarto aniversário da Coroação e Sagração de D. Pedro I, mas a celebração foi adiada, pois o Imperador estava no sul do país e também “pela continuação da enfermidade de Sua Majestade a Imperatriz”.

No dia seguinte, outra celebração foi cancelada: a comemoração de aniversário de um aninho de Pedro de Alcântara, o filho caçula do casal. Ao meio dia, uma má notícia foi publicada no Boletim de três de Dezembro, assinado pelo médico da Imperial Câmara, Dr. Vicente Navarro de Andrade, barão de Inhomirim:

“S.M. a Imperatriz passou a tarde de ontem com pouco cômodo; a febre conservou-se do mesmo modo que dantes, as evacuações biliosas, abundantes e numerosas, a tosse gutural teimosa, o sono pouco e não suficiente; pelas oito horas da noite houve um ligeiro espasmo de garganta com algum suor durante o mesmo espasmo.”

O aborto

A cada dia que passava o estado de saúde de Dona Leopoldina piorava. Os boletins médicos afirmavam que a imperatriz sentia fortes dores no nervo ciático, febre, diarreia e constipação. Entretanto não havia nenhum sinal de um possível aborto.

Maria Leopoldina de Áustria – Imperatriz Consorte do Brasil, por Jean Baptiste Isabey.

Já no dia 30 de novembro, o estado de saúde de Dona Leopoldina declinou, a imperatriz teve insônia, fastio, tosses, espasmos e crises de ansiedade. Os ataques de melancolia que a imperatriz sofria eram tão graves que a faziam chorar como uma criança.

Segundo o barão de Inhomirim, Dona Leopoldina teve algumas convulsões e evacuações sanguíneas. Os médicos faziam reuniões diariamente para discutir qual seria o melhor tratamento a ser dado a Imperatriz. A medicina da época não ajudava muito, usaram sanguessugas em diversos lugares do corpo de Dona Leopoldina e rasparam sua cabeça. Também fizeram exames de toque na Imperatriz grávida, vale lembrar que nessa época os médicos desconheciam a importância de lavar as mãos antes de fazer um exame como esse, o que pode ter levado alguma outra infecção.

No dia 2 de dezembro Dona Leopodina dormiu bem, mas continuou com uma evacuação sanguínea. As duas horas da tarde, sofreu um aborto de um feto do sexo masculino, que mostrava ter sessado sua vida recentemente.

A piora

Depois do aborto o estado de saúde da Imperatriz ficou estável e ela conseguiu dormir. Entretanto quando acordou, notou-se que Dona Leopoldina falava frases sem sentido algum e acusava a Marquesa de Santos e os médicos de envenenamento. Depois disso, a Imperatriz passou a alimentar-se somente de caldos.

A comoção popular sobre a saúde da Imperatriz

“Durante a enfermidade da imperatriz a capital do Rio de Janeiro esteve consternada, e todos procuravam saber do estado da soberana, de modo que o paço de São Cristóvão estava continuamente rodeado pelo povo. […] A imperatriz era estimada e querida por todos.” (Alexandre José de Mello Moraes, Chronica Geral do Brasil, 1886.)

“Durante a moléstia não houve quase pessoas, de qualquer classe da sociedade, que não fosse uma ou mais vezes ao palácio de São Cristóvão inscrever seu nome, saber notícias do estado da augusta enferma, e mostrar interesse pelo seu restabelecimento.” (J. M. Pereira da Silva, Segundo Período do Reinado de Dom Pedro I no Brasil.)

“A consternação do povo era indescritível; nunca […] sentimento mais unânime foi visto. O povo se encontrava literalmente de joelhos implorando ao Todo-Poderoso pela conservação da imperatriz. As igrejas nunca se esvaziavam e nas capelas domésticas todos ficavam prostrados de joelhos.”

Condições de compartilhamento: Permitimos o compartilhamento do texto, ou parte dele, desde que cite a fonte desta forma:
RIBEIRO, Sabrina. O maior funeral do Brasil – A morte da Imperatriz Leopoldina. Canal Apaixonados por História – Professora Sabrina Ribeiro, São Paulo, 16 de julho de 2020. Disponível em: https://apaixonadosporhistoriacanal.com/2020/07/16/o-maior-funeral-do-brasil-a-morte-da-imperatriz-leopoldina/

A unção

No dia 4 de dezembro, D. Leopoldina se confessou com o Bispo D. José Caetano e recebeu a extrema-unção.

A despedida dos filhos

Na manhã do dia 4, após se recuperar dos nervos, ela pediu para chamarem os filhos para se despedir deles. Em seguida ela chamou todos os criados do palácio em redor de si, e enquanto eles choravam, perguntou a cada um se o tinha ofendido. Dona Leopoldina partia dessa vida deixando um grande exemplo de humildade e piedade.

Retrato de Dona Leopoldina e seus filhos, por Domenico Failutti.

A morte

Então, às 10 horas da manhã do dia 11 de dezembro de 1826 a morte pôs fim aos seus sofrimentos, “sem esforço, sem agonia, suas feições de modo algum eram alteradas e ela parecia ter adormecido pacificamente e na posição mais natural”.

A reação de Dom Pedro

No Sul do Brasil, ao saber da morte de Dona Leopoldina, D. Pedro retornou às pressas.

Chalaça o velho amigo de Dom Pedro registrou: Pedro sentiu o golpe da perda. Apesar de atarefado em meio a mapas, tropas e projetos de campanha, meu amigo recebeu a notícia com “profunda mágoa”. “Tremeu e arrancou os cabelos.”

O beija-mão

Em seguida à morte de Leopoldina, organizou-se para ela a última cerimônia do beija-mão.

Na manhã do dia 13 a cerimônia começou. A Imperatriz foi sepultada com os mesmos trajes usados na Coroação de D. Pedro I. A primeira a beijar a mão enluvada de Dona Leopoldina foi sua filha primogênita, Maria da Glória, na época com apenas 7 anos de idade, em seguida foram suas irmãs e por fim o caçula Dom Pedro de Alcântara que havia completado 1 ano dias antes. Depois foi a vez dos altos funcionários e demais cortesãos.

Funeral

Às oito horas da noite, iniciou o cortejo fúnebre rumo ao Convento da Ajuda, primeiro lugar de repouso da imperatriz. Em 1911 foi transladada para o Convento de Santo Antônio e atualmente repousa na Cripta Imperial do Ipiranga em São Paulo.


Cortejo fúnebre da Imperatriz Dona Leopoldina Jean-Baptiste Debret.

Os depoimentos

Os sentimentos da população são confirmados por muitas testemunhas, entre elas o representante da Prússia, Theremin: “a consternação do povo era indescritível; nunca desde a morte de Luís XV, rei da França, sentimento mais unânime foi visto”.

“Toda a cidade estava de luto; uma dor muda de desespero tomava as fisionomias; negros, mulatos, portugueses, ingleses, italianos, alemães, todos choravam em comum a morte da imperatriz; pela primeira vez sentiam-se irmãos, o ódio nacional calava-se e os ressentimentos pessoais desapareciam.” (Carlos Seidler, mercenário alemão, testemunha ocular dos acontecimentos, 1835.)

Era uma mulher querida por todas as classes sociais, incluindo a dos escravizados. Segundo a escritora Maria Graham:

“Os pobres negros andaram pelas ruas por muitos dias gritando: ‘Quem tomará agora o partido dos negros? Nossa mãe se foi!’. Muitos e sentidos foram os lamentos das várias escolas e estabelecimentos de caridade.”

A Imperatriz Leopoldina partiu deixando uma nação enlutada e cinco crianças órfãs no Paço de São Cristóvão.

O ódio a Domitíla de Castro

O sentimento do povo era ameaçador. Queriam vingança contra a amante do Imperador, que era até então considerada a culpada pela morte da amada imperatriz. Corriam boatos na cidade que a amante tinha envenenado Dona Leopoldina. Cartas anônimas em tons de ameaça foram enviadas aos ministros. Os conselheiros decidiram afastar Domitíla da corte, pois acontecia um rebuliço na cidade.

Dois tiros foram disparados sobre um dos cunhados da marquesa de Santos e sua casa foi apedrejada. Vale lembrar que após a morte de D. Leopoldina nunca mais Dom Pedro I conseguiu reconquistar a simpatia do povo, pois muitos o julgavam como o causador da morte da amada imperatriz.

Os jornais registraram a reação da população: choravam famílias no interior de suas casas e mesmo os estrangeiros não escondiam as lágrimas. Do sobrado à senzala, do comércio ao zungu, onde se reuniam escravos, das ruas às estradas, o povo chorava. A cidade do Rio de Janeiro cobria-se de luto.

Os mais lamentos mais sinceros eram os dos pobres e humildes que a soberana tinha sempre ajudado quando viva. Fazia constantes doações, obras de caridade, vendeu muitas de suas suas joias para suprir a necessidade das viúvas e inválidos, e acabou morrendo endividada por conta disso. Dona Leopoldina ajudou incontáveis famílias e enfermos.

Um antigo escravizado africano que trabalhava na Quinta da Boa Vista relatou sobre d. Leopoldina: “Era muito boa, quando passava por nós, cativos, parava e dizia-nos palavras confortadoras.”

De acordo com alguns relatos, o imperador demonstrou “provas inequívocas de uma grande dor” pela morte da esposa. Após o sepultamento o Imperador se isolou no palácio por oito dias e escreveu os seguintes versos:

O mundo não verá mais n’outra idadeModelo mais perfeitonem melhor. D’honra e candura, amor e caridade.

— Dom Pedro I sobre a morte de sua primeira esposa (Imperatriz Leopoldina)

A suposta briga e agressão

Sobre a morte de Leopoldina existem várias especulações. Uma versão dessas lendas conta que Dom Pedro I teria empurrado a Imperatriz da escada e ela teria quebrado o fêmur. Outra diz que Dom Pedro I teria dado um chute no abdômen da esposa grávida, outra versão diz ainda que Domitila de Castro teria envenenado a Imperatriz.

Todos esses boatos não passam de lendas contadas de geração em geração. Em 2012 a historiadora e arqueóloga Valdirene Ambiel em parceria com a USP exumaram o corpo de Dona Leopoldina e após muitas analises e estudos o médico Dr. Luiz Roberto Fontes chegou a conclusão que a causa mortis de Dona Leopoldina não teve nenhuma ligação com alguma ação violenta. O aborto não foi consequência de um trauma físico sofrido por Dona Leopoldina.

Para que haja um abortamento causado por um trauma é necessário que a força aplicada seja muito violenta, como atualmente por exemplo, um acidente de trânsito, onde a vítima sofreria hemorragia entrando em óbito em questão de horas.

Lembrando que Dom Pedro I partiu do Rio de Janeiro para Cisplatina em 23 de novembro de 1826, ou seja, nove dias antes do aborto sofrido pela Imperatriz, que ocorreu no dia 2 de dezembro de 1826 e 18 dias antes de sua morte em 11 de dezembro de 1826.

Afirmando mais uma vez que ela não faleceu em decorrência de uma agressão física, mas sim por uma infecção uterina ou puerperal.

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Canal Apaixonados por História – Professora Sabrina RIbeiro

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FONTES & LIVROS:

DEL PRIORE, Mary. A carne e o sangue: A Imperatriz D. Leopoldina, D. Pedro I e Domitila, a Marquesa de Santos. Editora: Rocco

REZZUTTI, Paulo. D. Leopoldina: a história não contada. A mulher que arquitetou a Independência do Brasil. Editora: LeYa.

REZZUTTI, Paulo. D. Pedro: O homem revelado por cartas e documentos inéditos. Editora: LeYa.

Por Apaixonados por História - Professora Sabrina Ribeiro

O Canal Apaixonados por História foi criado no dia 11 de janeiro de 2020 pela historiadora, pesquisadora e Professora Sabrina Ribeiro.

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