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A EDUCAÇÃO DE DOM PEDRO I (PEDRO IV)

A rotina de ensino do príncipe funcionava desta forma: Dom Pedro estudava todos os dias da semana durante duas horas, porém se o príncipe achasse algo que julgasse ser mais interessante para fazer durante esse tempo de estudo, poderia dispensar os professores a qualquer momento. E isso aconteceu inúmeras vezes. Dom Pedro era uma criança indisciplinada e para piorar estava rodeado de cortesãos que o bajulavam e não o contrariavam.

O pequeno príncipe da Beira, Dom Pedro de Alcântara foi descrito como um menino inteligente, mas que não gostava de estudar. Era uma criança aventureira, impulsiva, ousada, sentimental e só queria que as coisas funcionassem do jeito dele.

Em 1804, quando Dom Pedro contava com 6 anos de idade, Dom João decidiu dar início ao plano de estudos do príncipe herdeiro. O menino teve como professor, diversos mestres e estudiosos europeus.

Universidade de Coimbra, foto de François Philipp 

O estudioso de matemático, astrônomo e vice-reitor da renomada Universidade de Coimbra, José Monteiro da Rocha foi um dos primeiros tutores de Dom Pedro. Ao falecer em 1819, deixou como herança ao príncipe toda a sua biblioteca.

O Frei Antônio de Nossa Senhora da Salete também foi seu professor, dava aulas de latim e literatura.

As publicações pedagógicas que serviram de base para a educação de Dom Pedro provieram de dois livros chamados “Breve desenho da educação de um menino nobre (1781)” do frei José Caetano Brandão e “Apontamentos para a educação de um menino nobre (1734) escrito por Martinho de Mendonça”.

D. Pedro amava praticar exercícios físicos em geral, como a natação e escalada. Inclusive, foi uma das primeiras pessoas a chegar no cume do Corcovado. Outra curiosidade, são os relatos e cartas comprovando que Dom Pedro era um dos únicos homens de sua época, que fazia questão de tomar banho todos os dias.

Pedro em 1809, por Francesco Bartolozzi

Durante a transferência da corte portuguesa para o Brasil, Dom Pedro com então 9 anos de idade teve que se mudar de Portugal rumo a terras tropicais.

O escritor francês Eugène Garay de Monglave que embarcou a viagem ao Brasil, relatou o dia a dia do pequeno príncipe a bordo.

Passava o dia em meio aos oficiais e guardas-marinhas, cooperando nos cálculos de longitude e manobras de bordo, adquirindo constantemente experiências náuticas. Ou então podia ser encontrado sentado ao lado do mastro principal lendo seu livro favorito “Eneida de Virgílio no original italiano”, um livro que narra a viagem do lendário herói troiano Eneias e sobre o famoso Cavalo de Tróia. Relatos afirmam quem Dom Pedro não passava um dia, sem ser visto com o livro em mãos.

Frei franciscano Antônio de Arrábida passou a dar continuidade as aulas do príncipe, pois o professor Monteiro da Rocha teria ficado em Portugal. Frei Arrábida era um grande estudioso de teoria política e botânica.

João Rademaker era um antigo diplomata português e agente secreto inglês. Rademaker era considerado um homem muito refinado e poliglota. Foi escolhido por Dom João VI para ser o novo preceptor de Dom Pedro, já que o mestre Monteiro da Rocha teria ficado em Portugal. Diversas fontes afirmam que Rademaker foi um excelente professor para Dom Pedro.

A rotina de ensino do príncipe funcionava desta forma: Dom Pedro estudava todos os dias da semana durante duas horas, porém se o príncipe achasse algo que julgasse ser mais interessante para fazer durante esse tempo de estudo, poderia dispensar os professores a qualquer momento. E isso aconteceu inúmeras vezes. Dom Pedro era uma criança indisciplinada e para piorar estava rodeado de cortesãos que o bajulavam e não o contrariavam.

Por mais que tenha sido difícil, o professor Rademaker conseguiu aprofundar os conhecimentos do menino em diversas matérias como: geografia, história, matemática, lógica, política e economia. Além disso o príncipe aprendeu falar latim, inglês e francês, além do português é claro. O príncipe escrevia muito bem e é possível notar, que quando era necessário Dom Pedro fazia uma caligrafia muito bela.

Carta de despedida de Dom Pedro I aos brasileiros, escrita em 12 abril de 1831

A governanta d. Maria Genoveva do Rego e Matos era responsável por ensinar boas maneiras, tratava o menino com todo o amor e carinho, e o-encorajava a estudar. Diziam que se a governanta não conseguisse mudar a opinião do garoto, ninguém mais conseguiria, pois Genoveva era uma das únicas pessoas que Dom Pedro dava ouvidos. Dona Maria Genoveva fez o papel de mãe que Dona Carlota tinha rejeitado. Durante a partida da família real em 1821, Genoveva se recusou a voltar para Portugal, porque teria que deixar seu menino no Brasil.

Até os 19 anos de idade a participação de Dom Pedro na vida política era praticamente nula. Os nobres que rodeavam seu pai Dom João, faziam de tudo para manter Pedro longe do pai e dos assuntos do governo. Tentavam por diversas vezes criar intrigas entre pai e filho.

Durante a pré-adolescência Dom Pedro demonstrava em sua personalidade que seria uma pessoa sem paciência. Detestava regras e cerimônias longas.

Condições de compartilhamento: Permitimos o compartilhamento do texto, ou parte dele, desde que cite a fonte desta forma:
RIBEIRO, Sabrina. A educação de Dom Pedro I (Pedro IV). Canal Apaixonados por História – Professora Sabrina Ribeiro, São Paulo, dia, mês e ano. Disponível em: https://apaixonadosporhistoriacanal.com/2020/07/28/a-educacao-de-dom-pedro-iv/

Umas das atividades manuais que Dom Pedro demonstrou muito interesse eram a marcenaria e a escultura. O príncipe esculpiu um navio de guerra em miniatura. Fez uma mesa de bilhar completa e esculpiu uma figura de prova para uma fragata. Também estudou música, criou poesias e fazia muitos desenhos.

Pedro em agosto de 1822, por Simplício Rodrigues de Sá

O irlândes Robert Walsh que fazia parte da embaixada britânica declarou: “A atividade a que ele mais se devota é a música, pela qual desenvolveu, em uma idade precoce, uma forte predileção, e mostrou um decidido talento. Ele não apenas aprendeu a tocar uma variedade de instrumentos, mas compôs, eu fui informado, muitas das músicas para a capela de seu pai; e a peça mais popular agora no Brasil, tanto as palavras quanto a música são de sua composição, atestando seu talento.”

Aliás se você quer conhecer todas as habilidades musicais do nosso primeiro imperador, assista o vídeo: Quantos instrumentos Dom Pedro I sabia tocar? O Imperador Compositor.

Assistam também o vídeo: A Criação de Dom Pedro I (Infância de Dom Pedro IV) para vocês entenderem o ambiente em que o Imperador cresceu.

Canal Apaixonados por História

O maestro real e compositor Marcos Portugal passou a dar aulas a d. Pedro em 1811. Em 1814 o mestre Rademaker faleceu e o Frei Arrábida tornou-se o novo preceptor do príncipe. O padre irlandês John Joyce ficou responsável por dar continuidade às aulas de inglês. O padre francês Boiret ficou responsável pelo estudo do idioma francês. O pintor Domingos Antônio de Sequeira tornou-se professor de desenho e pintura. Roberto João Damby e Joaquim Carvalho Raposo eram responsáveis pelas aulas que Dom Pedro amava, aulas de adestramento de animais e equitação.

Para Dom Pedro não importava o horário, nem se estava chovendo, saia para cavalgar quando dava vontade, pois sua verdadeira paixão era correr em alta velocidade a cavalo. Atividade que compartilhava muitas vezes com sua esposa Leopoldina. Dom Pedro durante os últimos anos de sua vida, relatou aos médicos que teria sofrido mais de 30 grandes quedas de cavalo. Chegando a quebrar diversos ossos, incluindo ossos do rosto, bom, mas isso é assunto para outro vídeo.

Após a morte de seu preceptor Rademaker, Dom Pedro não demonstrou mais tanto interesse em estudar. Futuramente o Imperador se arrependeu por não ter se dedicado tanto aos estudos, em carta aos seus filhos pequenos, cobrava intensamente que estudassem, pois dizia que eram necessários muito estudo e aplicação para ocupar um trono e que bastavam ele e seu irmão Miguel como os últimos ignorantes da família.

Depois de ter casado com Dona Leopoldina em 1817, d. Pedro e a esposa costumavam estudar e tocar instrumentos musicais juntos. Dom Pedro nesse período demonstrou interesse em teoria política e do estado.

Tornou-se um leitor assíduo das obras do pensador, político e escritor francês Henri-Benjamin Constant de Rebecque, com quem trocou algumas cartas. Além disso, estudou a fundo as obras do jurista e filósofo italiano Gaetano Filangieri.

A relação de Dom Pedro com sua mãe não era nada tranquila e saudável. Há relatos que Dona Carlota agredia os filhos, chegando a dar bofetadas no príncipe Dom Pedro em público, mesmo depois de casado.

Sobre a criação dos filhos legítimos e bastardos Dom Pedro afirmava a todos que a educação vinha em primeiro lugar. Dava um único conselho aos filhos e filhas:

“Estude para conseguir seu lugar no mundo. Em vez de se apoiarem no nascimento, devem fazer por merecer.”

Certa vez, já em Portugal, durante a guerra contra seu irmão Dom Miguel, Dom Pedro recebeu uma carta de sua filha primogênita, Maria da Glória e respondeu:

“Minha querida Maria. Recebi a tua cartinha de 10 de maio escrita um pouco mal para a tua idade e adiantamento. Parece-me que tu não tens cuidado muito de estudares, e enquanto Mamam não me mandar dizer que tu aplicas como no meu tempo, eu não deixarei de te mostrar sempre que tenha ocasião o meu desprazer: quando tu, minha filha, chegares a uma idade mais avançada, tu não deixarás de conhecer que eu tinha razão de te desejar ver instruída, o efeito de não ter recebido uma educação conveniente eu tenho sentido, tudo que tenho feito tem sido porque Deus me tem favorecido, eu não quero que tu me julgues para o futuro um pai descuidado de tua educação, antes quero que me tenhas por severo. O amor que te tenho, minha querida filha, é que faz falar-te tão claro, eu espero que tu estudes d’ora em diante como convém quem tem que reger uma Nação que precisa de bons exemplos e de uma rainha assaz instruída […]”

Maria II, 1829 por Thomas Lawrence

Além disso Dom Pedro pediu a menina que cuidasse de sua alimentação e praticasse exercícios físicos ao ar livre, pois Dona Maria da Glória estava acima do peso.

Em outra carta, dessa vez falando sobre seu filho bastardo Rodrigo Delfim Pereira, Dom Pedro demonstrou bastante preocupação quanto a educação do menino:

“A respeito de meu filho Rodrigo […] ele ainda não sabe ler, nem escrever […] peço-lhe que o mande aprender a nossa língua, além de tudo que deve estudar, pois não o quero que, depois de grande, me apareça por cá dizendo: — minha cavalo, minha Pai, etc. Se o mandasse estudar em França achava melhor, pois, pelo pouco que sei desse país, vejo que o governo muito tem cuidado dos colégios […]

2 de março de 1829 — Dom Pedro I em carta sobre seu filho.

Rodrigo Delfim Pereira, filho ilegítimo de Dom Pedro I com Maria Benedita de Castro

Dois anos depois, em 14 de outubro de 1831, Rodrigo Delfim Pereira aos 8 anos de idade enviou sua primeira carta ao pai:

“É meu primeiro dever, tendo aprendido a escrever, dirigir-me a Vossa Majestade, para agradecer-vos por vossa bondade, outorgando-me uma boa educação, e assegurar-vos que eu estou me esforçando, tanto quanto posso, para progredir em meus estudos, particularmente na língua portuguesa […]”

A sua outra filha bastarda Duquesa de Goiás, Dom Pedro escreveu em 5 de maio de 1830: “Trabalha por merecer alguma opinião, e não te fies na tua hierarquia, pois a civilização tem feito ver aos monarcas e aos grandes, que não basta o nascimento, que é necessária uma boa educação e saber […]”

— Rodrigo Delfim Pereira em carta a Dom Pedro I

Ao seu filho Dom Pedro II, que viria ser o Imperador do Brasil escreveu em 2 de dezembro de 1833:

“Peço-te, meu adorado filho, que te não esqueças nunca de mim; que estudes; e que te faças digno de governar tão grande império. Mui útil seria que tu tomasses, bem como tuas irmãs, lições de geografia e de história, na idade em que tu estás e tuas manas esta qualidade de lições servem de suavizar o peso que causam as mais enfadonhas. […] Muito te agradeço os desenhos que me enviaste em carta tua e de tuas irmãs datada de 3 de setembro: eles são lindos, mostram bem o adiantamento em que seus autores se acham e fazem acreditar que igual adiantamento eu devo supor nos mais estudos. […]

Dom Pedro II com cerca de 14 anos de idade

Sim, meu amado filho, é muito necessário, para que possas fazer felicidade do Brasil, tua pátria de nascimento e minha de adoção, que tu te faças digno da nação sobre que imperas pelos teus conhecimentos, maneiras etc. etc., pois, meu adorado filho, o tempo em que se respeitavam os príncipes por serem príncipes unicamente acabou-se.

No século em que estamos, em que os povos se acham assaz instruídos de seus direitos, é mister que os príncipes igualmente o estejam e conheçam que são homens e não divindades, e que lhes é indispensável terem muitos conhecimentos e boa opinião para que possam ser mais depressa amados do que mesmo respeitados […].”

— Dom Pedro I em carta a Dom Pedro II

Dom Pedro I cresceu de uma forma muito livre, sem regras e dispensava seus professores muitas vezes. Adulto, percebeu o prejuízo que a falta de instrução poderia lhe causar. Por isso, foi um pai extremamente rígido em relação a educação dos filhos.

Lista com os nomes de todos os professores de Dom Pedro I

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FONTES & LIVROS: REZZUTTI, Paulo. D. Pedro: O homem revelado por cartas e documentos inéditos. Editora: LeYa.

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Por Apaixonados por História - Professora Sabrina Ribeiro

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